
Desenhar nas paredes é uma das expressões artísticas mais antigas. Arte rupestre consiste em um enorme guarda-chuva para produções datadas há mais ou menos 15 a 5 mil anos atrás de várias partes do mundo, como a caverna de Lascaux, na França, Altamira, na Espanha, Patagônia, na Argentina e Serra da Capivara, aqui no Brasil, onde encontramos desenhos preservados nas paredes de cavernas. Geralmente esses desenhos representam momentos cotidianos, animais, caçadas. São muito comparadas na contemporaneidade com o grafite, pela sua relação com essa marca da sua existência diretamente nos objetos do mundo real.
Essa é uma das maneiras que Hushpuppy (Quvenzhané Wallis), protagonista do filme Indomável Sonhadora, nossa próxima sessão, encontra para lidar com sua realidade: marcar os objetos e as paredes de sua casa com seus desenhos. Hushpuppy vive em uma região chamada Banheira, no sul da Louisiana, nos EUA, do lado de dentro de uma barragem construída para impedir que as águas lamacentas avancem sobre as partes mais interiores do continente. Essas águas, resultado do derretimento das calotas polares e de tempestades avassaladoras, são consequência das transformações ambientais provocadas pelo modo de produção capitalista.
Acompanhamos a jornada de Hushpuppy sob seu olhar de criança, descobrindo com ela o mundo a sua volta, sua rotina e a falta de rotina, em círculos pela Banheira. Sua casa faz parte de uma comunidade de pessoas que se recusam a deixar sua terra e viver nos abrigos, chamados por ela de aquários sem água, do outro lado da barragem. Ela cuida de animais com seu pai, mais ou menos ausente, e frequenta uma escola improvisada em conjunto com crianças de idades diferentes.
Há uma beleza que a fotografia do filme consegue retratar nessa realidade de meio caminho andado para o apocalipse climático. Mesmo vendo casas submersas, destroços se tornando barcos improvisados, fome e doença, essa escolha de continuar buscando a sobrevivência, mesmo já tendo perdido para as respostas da natureza, nos faz sentir algo entre um abismo de pessimismo e um pico de esperança. Essa indomável persistência humana, tanto por parte do povo da Banheira quanto das instituições do outro lado da barragem, é espelhada em uma das partes mais fantasiosas da obra, na qual feras antigas – um tipo de superpredador primitivo que estava congelado nas geleiras, retornam àvida e começam uma caminhada sempre em frente, devorando tudo ao seu alcance.
Aguardamos ansiosamente pela presença de todes nessa próxima sessão, em parceria com o Laboratório de Estudos Queers em Educação. Dia 21/10, às 16h, no Auditório Manoel Maurício/CFCH, vamos pensar com o filme em torno do tema da mesa: Educação, cuidado e persistência em tempos de colapso climático, com (as)os convidadas(os) Ana Paula Valle Pereira (UFF) e Jorge Felipe Marçal (CAp-UFRJ). Até lá!
Texto: Ana Carolina Alves Gonçalves – Bolsista PIBIAC do projeto Pedagogias da Imagem



















