“Corra!”, o gênero terror e as questões sociais

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O gênero cinematográfico do terror é geralmente associado à ideia de filmes regados a banhos de sangue e efeitos visuais de má qualidade. Dessa forma, a crítica acaba por rechaçar esse gênero, considerando-os filmes “sem ideias”, cujo conteúdo não traria à tona questões sociais. Todavia, nos últimos anos, uma série de produções captou a estima dos especialistas em cinema, como por exemplo Um lugar silencioso (2018); A bruxa  (2015); Hereditário (2018), Grave (2016) e o próximo filme a ser exibido no cineclube Pedagogias da Imagem, Corra! (2017). Tais longas não são considerados apenas filmes de terror, visto que a concepção preconceituosa construída acerca desse gênero colabora com o desejo de distanciamento daqueles elementos que o caracteriza como um gênero menor. Nesse contexto, surgem denominações como “elevated horror” (terror sofisticado), “drama extremo”, “thriller-chiller” (suspense de calafrios, em tradução livre), entre outros. Assim, percebe-se uma resistência em considerar filmes de terror como formas válidas de arte, dignas de fazer o público pensar e esteticamente legitimadas. “Mas a realidade é que os filmes acima podem ser reunidos sob uma única bandeira. Eles são perturbadores e desafiam o público a pensar. De um jeito ou de outro, são todos de terror”, afirma Simon Rumley, roteirista britânico, diretor e autor associado ao gênero de terror.

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Ben, personagem de “A noite dos mortos-vivos”, de George Romero (1968).

Todavia, esse tipo de abordagem estética valorizada em películas do gênero não é algo recente. “O Iluminado” (1980), “O exorcista” (1963), “O bebê de Rosemary” (1968) conquistaram o amor do público e o respeito da crítica, ao serem considerados formas de terror inteligentes, se configurando, assim, como clássicos do gênero e do cinema como um todo. Um ótimo exemplo dessa perspectiva social permeando o enredo desse gênero menosprezado é a obra Noite dos mortos vivos (1968) de George Romero. (atenção aos que se preocupam com spoilers! Caso não queiram saber detalhes deste filme, pulem para o parágrafo seguinte). A trama retrata a luta pela sobrevivência de um grupo de cinco refugiados em uma casa, enquanto uma horda sedenta de zumbis tenta atacá-los. O aspecto revolucionário se dá no fato de ter um protagonista negro, Ben, como “herói” da história, aquele que salva a outra protagonista branca, Barbara. A situação da fuga perpassa a luta racial dos anos 1960 ao demonstrar a incapacidade dentre os outros refugiados, brancos, e Ben de trabalharem juntos em prol de sua sobrevivência. Ao fim da narrativa, apesar de Ben e Barbara serem os únicos sobreviventes da ameaça zumbi, o protagonista acaba sendo assassinado por uma equipe de policiais ao ser confundido com uma ameaça. Entretanto, esse ato dantesco alude aos episódios históricos ligados ao racismo da força policial dos E.U.A. no período, muitas vezes encarando jovens negros como uma “classe perigosa”. Desse modo, demonstra-se a capacidade e a relevância do horror cinematográfico em abordar criticamente características da sociedade, gerando, assim, uma reflexão por parte do espectador, exponenciada pelo enquadramento cru e sanguinolento que espelha a realidade em suas existências mais expostas ao crime e ao ódio.

Tal temática é desenvolvida, também, pelo diretor e roteirista Jordan Peele em seu filme Corra! (2017), retratando a história de Chris, um jovem negro que namora Rose, uma menina branca de família tradicional. Quando o casal decide passar o final de semana na casa dos pais de Rose, o que era para ser uma viagem tranquila e ordinária se transforma em um pesadelo, permeando sobre a trama uma constante sensação de estranhamento. A importância de sua temática é evidenciada pelo Oscar de Melhor Roteiro Original, conquistado por Peele em 2018, sendo o primeiro homem negro a ganhar tal estatueta. Sendo assim, esse prestígio confere visibilidade não somente à problemática do racismo na sociedade – e à representatividade negra no cinema -, como também ao gênero do terror como algo além de um filme de entretenimento popular. Dessa maneira, Corra! também abre espaço para que novos filmes do gênero sejam mais bem recebidos pela crítica, sendo considerado como realmente obras de terror recheados de ideias e críticas sociais, passíveis de serem aclamadas sem a necessidade de uma nova terminologia que os eleve acima das “ordinárias” películas de horror.

Em meio às comemorações do mês da Consciência Negra e visando analisar as questões raciais que permeiam sua cinematografia, o longa Corra! (2017), de Jordan Peele, será exibido amanhã na sessão de encerramento da temporada 2018 do Pedagogias da Imagem, cineclube da Faculdade de Educação da UFRJ. A sessão acontece no dia 27 de novembro, às 17 horas, no Campus da Praia Vermelha, no Auditório Manoel Maurício. Após a sessão, Bernardo Oliveira, pesquisador, crítico de música e cinema, produtor e professor da Faculdade de Educação da UFRJ, realizará a palestra Economia libidinal e incêndio na Casa Grande. Todos estão convidados para as discussões sobre racismo e terror no cineclube!

 

Redação:

Camila Carneiro
Jeniffer Cavalcanti – extensionistas do projeto Pedagogias da Imagem